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Em meio ao enfrentamento da pandemia causada pelo Coronavírus, faz-se necessário dar um passo atrás para enxergar o cenário que estamos inseridos e como nos portaremos daqui para frente. Nesse momento, é importante a contextualização com outras crises passadas para entendermos como vamos sobreviver a atual.

O professor Marco Antônio dos Santos Martins, doutor em Administração com ênfase em finanças pela UFRGS, oferece uma visão sobre esse período. Para ele estamos passando por uma crise com um contexto diferente das últimas que trouxeram as bolsas do mundo para baixo. Essa é uma crise sanitária, e não puramente econômica, na batalha contra um vírus que se provou um oponente forte contra nossa sociedade globalizada.

Diante desse cenário, o mercado financeiro respondeu com forte desvalorização e volatilidade nos preços dos ativos diante das incertezas associadas à pandemia, exacerbando a aversão ao risco no mundo. No Brasil observamos o índice da bolsa brasileira cair cerca de 45% entre fevereiro e março deste ano. 

O quadro que se apresenta no mundo é de fato algo ímpar na economia contemporânea, sendo assim serão impostos a governos e a sociedades desafios nunca vistos antes que precisarão ser ultrapassados.  Entretanto, buscando o histórico do Ibovespa, pode-se observar momentos de grandes desvalorizações em que a volatilidade se elevou durante períodos de instabilidade e incertezas, como mostra o gráfico abaixo:

O primeiro ponto de volatilidade, foi a crise econômica do México de 1994, mais conhecida como Efeito Tequila, a qual teve repercussão mundial e foi provocada pela falta de reservas internacionais, causando desvalorização do peso, durante os primeiros dias da presidência de Ernesto Zedillo. Nesse período o IBOVESPA perdeu quase metade do valor entre 17 de dezembro de 1994 e março de 1995. Próximo ponto de grande volatilidade se deve a crise Asiática que teve início em 1997 e começou na Tailândia. Na época, o país acabará de decidir por tornar o câmbio flutuante, o que gerou desvalorização da moeda local. Nos meses subsequentes, os impactos já começaram a afetar a Bolsa de Valores de Hong Kong e as consequências fizeram desta uma das maiores crises financeira da década de 90. O efeito sobre a economia e política da Rússia foi severo, o presidente do país na época, Boris Yeltsin chegou a demitir todo o governo, levando o rublo russo a entrar em colapso e a bolsa Russa a entrar em recessão. No Brasil, entre julho de 1997 e janeiro de 1999 que de 14.000 pontos chegou a bater 4.600. Entre 2001 e 2002, WTC, Medo do Lula, foram novas perdas. Em 2008, com o subprime mais perdas fortes. E entre 2012 e 2016, com a nova matriz econômica do governo PT causando mais um ciclo de perdas.

Ou seja, o mercado brasileiro já enfrentou momentos em que o sistema financeiro se cobriu de riscos e incertezas, entretanto em todos esses momentos o mercado se recuperou e foi capaz de criar formas de se proteger contra movimentos semelhantes no futuro. O que estamos passando agora, um cenário de pandemia, foi um movimento que já era previsto por diversos analistas, inclusive documentado em um episódio do documentário Explicando da Netflix, “A próxima pandemia” lançado em 07 de novembro de 2019, apenas foi subestimado do ponto de vista do sistema de saúde. Por esse motivo, começou-se a compreender e estudar meios para contornar essa situação de forma a preservar vidas e manter os efeitos negativos econômicos sob controle.

Em suma, a maior pergunta que resta agora é a de como lidar com esse cenário financeiro, econômico e político. O que pode ser feito agora é buscar desenvolver um olhar crítico a todos os efeitos que trouxeram o mercado financeiro a esta queda, compreende-los, interpreta-los e buscar oportunidades para diminuir seus impactos no futuro. A queda no valor de mercado dos ativos brasileiros listados em bolsa, tem sim como responsável a disseminação global do Covid-19, no entanto alertou diversos investidores para o fato de que existem ativos a um preço 1 ou 2 vezes mais alto que seus fundamentos. Essa supervalorização dos papéis pode ser explicada pelo momento de euforia que o mercado viveu em 2019, ao presenciar um aumento de 100% no número de CPF’s registrados na bolsa.

Isso de fato causará uma realização no preço dos ativos para se estabilizarem em preços mais próximos as realidades de faturamento e projeções de crescimento das empresas. O que não significa que a bolsa não possa voltar ao patamar dos 115 mil pontos. Max Bueno, responsável pela cobertura do setor de commodities na Spinelli enfatiza, grande parte dos ativos cotados na bolsa irão subir, o bom gestor é o que acerta o timing para entrar e sair do ativo, assim tendo mais efetividade em suas alocações. 

Durante a gripe espanhola no início do século XX, embora os dados econômicos da época sejam escassos, alguns estimam que o impacto negativo da gripe espanhola no PIB mundial foi de 6%, e no consumo agregado, este impacto chegou a 8%, dados do Fórum Econômico Mundial. Cerca de doze países sofreram desastres macroeconômicos baseados na queda do PIB e oito sofreram desastres similares baseados na queda do consumo. Além da Europa e dos Estados Unidos, o vírus circulou na Índia, Sudeste Asiático, Japão, China, África, Américas Central e do Sul. Estima-se hoje que a pandemia afetou, direta ou indiretamente cerca de 50% da população mundial, tendo matado de 20 a 40 milhões de pessoas – mais do que a própria Primeira Guerra (cerca de 15 milhões de vítimas) .

A doença chegou ao Brasil através de Militares da Marinha, que estiveram em missão na África durante a guerra, pelo menos 100 marinheiros morreram na época. No mesmo período, navios que atracaram em estados da Região Nordeste ajudaram a disseminar ainda mais a doença, que alcançou a Região Norte. O vírus também chegou a São Paulo e à capital brasileira na época, o Rio de Janeiro.

 O medo acabou criando um isolamento forçado de toda a população, já que o governo demorou a enfrentar o avanço da pandemia. Pelo menos 30 mil morreram em decorrência de gripe espanhola no Brasil. Só o Rio de Janeiro teve 12 mil óbitos em dois meses. Essa pandemia acendeu um alerta para as autoridades de saúde na época, e medidas adotadas durante a pandemia da gripe espanhola se tornaram grandes medidas preventivas praticadas hoje. Por exemplo, não havia na época sistemas públicos de saúde nem campanhas de vacinação em massa contra a gripe, que vieram a ser implantadas nas décadas seguintes. Outro exemplo são as medidas hoje tomadas para combater a Covid-19, as quais são um dos efeitos mais duradouros da gripe espanhola. Pode se observar na época que as cidades que se anteciparam na adoção de medidas de distanciamento social e foram mais agressivas em sua aplicação “não só não tiveram um desempenho pior, mas cresceram mais rápido quando a pandemia passou” concluíram os pesquisadores do Federal Reserve. Segundo o artigo “Pandemics Depress the Economy, Public Health Interventions Do Not: Evidence from the 1918 Flu” por Correia, Luck e Verner uma reação 10 dias antes da chegada da gripe aumentou o emprego na indústria em cerca de 5% no período posterior à doença. E a ampliação das medidas de distanciamento social por mais 50 dias elevou essa taxa de emprego industrial em 6,5%.

O que pode ser feito para tomar as melhores decisões agora é basear-se em exemplos de como foram suavizados os efeitos de outras crises através da história. Observar como outros países estão lidando com o cenário da Covid-19, em geral o que vem sendo praticado hoje na grande maioria dos países é o distanciamento social, alguns exemplos são Itália, EUA, Espanha e Alemanha. 

No Brasil, até a manhã de 16 de abril totalizam cerca de 30 mil infectados pela doença, podemos observar que o Brasil teve algum sucesso em retardar o pico da doença, que deve acontecer no final de abril e ou início de maio. Mesmo os preços do IBOV já se acomodando ao redor dos 78 mil pontos, ainda pode-se esperar uma queda durante o período de pico da doença no país. Sendo assim, a busca de ativos para este período se torna mais complexa do que o normal, entretanto é um período repleto de oportunidades por uma visão de investimento a longo prazo, parafraseando Warren Buffet, o mercado financeiro foi feito para transferir dinheiro dos impacientes aos pacientes, e esta hora se apresenta como uma brecha para a compra de papéis de empresas com caixa sólido para atravessar a quarentena e de boa gestão, afinal estamos vivendo um momento de instabilidade em que os preços irão oscilar, e isto será um teste para o fundamento e as equipes das empresas onde as mais adaptadas irão sair fortalecidas.

Por Augusto Ivan Bordin

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